5 de fevereiro de 2015

Run, baby

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Hoje acordei com vontade de correr. Alçar meu corpo numa corrida intensa e atravessar todas as fronteiras. Especialmente, aquelas que delimitei.  Aquelas que pintei e defini. Meu corpo não teria limites e não seria magrelo e desarmado como tem sido até agora.
Vou riscar e rabiscar todo o mapa, pensei.

A casa respirava junto comigo – o meu quarto se contraia e descontraia como um pulmão. No ritmo exato da minha. Quase acordando, mas ainda dormindo.

E desde então, tudo mais parece ter vida. Os livros que mudam de lugar e se enfileiram por afinidade, a vassoura que muda de lugar, meus óculos que estão sempre a esconder-se.  E assim passa-se o dia. Numa brincadeira de esconde-esconde.E talvez um dia eu volte a ser criança, intuo. E tudo mais, inclusive as bonecas que não tenho mais, saiam do lugar sempre que eu der as costas (aquela brincadeira de estátua).

A vida parece um fluxo inteiro, intenso. Nós inventamos de picotá-la. E nós inventamos que temos que crescer. Por quê?

Inventamos um monte de coisa, dentre elas a fronteira e o limite. Cercamos nosso território e diminuímos nossas possibilidades. Porque temos medo das mudanças, temos medo de mudarmos, temos medo de admitir que nem sequer sabemos quem somos. Nós somos invenção – nós somos as memórias que enfeitamos e um monte de outras coisas que nem ao menos nomeamos.

Coisas sem nome. Somos e estamos presos nas palavras que nem sequer ousamos dizer. Atravessar fronteiras é pisar em lugar estranho e tudo que é estranho pode nos engolir (ou não!).

O corpo deitado na cama encolhido em forma de feto e com temor da inércia – contra a qual brigo todo dia. Inventamos junto com a fronteira, o conflito. E inventamos a saída de incêndio e a tal luz no fim do túnel, os escapes, as escapadelas, a porta dos fundos e o porão.
Somos bons em fugir. Precisamos correr (coelho de Alice) a hora sempre chega.

Ananda Sampaio***


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