2 de junho de 2015

Monogramo


Quem nunca morou na própria impossibilidade não sabe o que é sentir-se desabrigado. O voo é amador, mas é um voo.  Mesmo sob risco constante de mais uma queda. [A paisagem é minha].

A impossibilidade passa então a ser mais um abismo atravessado, mesmo que de maneira atravancada. Morar na impossibilidade é estar preso no purgatório – habitar um lugar que entre os quase vivos e mortos não se salvam todos.


Os olhos atentos e globais do meu gato me observam. Até ele parece acreditar numa solução [até ele quase sempre tão alheio me diz sim]. O corpo pesa e sobre os ombros parte da minha vontade é sentida. Parte da minha vontade se estende e se alavanca. Suspenso. Além das rotas, dos dias e das tarefas. Levita, se interpõe e é quase dono de si. Quase absoluto e quase consegue superar o mundo.

Quase.

É preciso perder a conta, perder o medo, perder o chão, perder o controle. Por fim, perder-se labirinticamente. Perder a língua e a fala. Fazer malabarismos de silêncio. Perceber que mesmo quando tudo está quieto, ainda há movimento. O mundo está subcutâneo. A correr por debaixo da terra. A vida mesmo quando calada se move nas pontas dos pés [ensurdecedora].


Atravesso desertos.


Ananda Sampaio


Um comentário:

Tetê Pessoa disse...

"Fazer malabarismos de silêncio." Preciso comentar ? Estupendo!