2 de setembro de 2015

Afogada na proa

Mervyn Ogorman

Morrem dentro de mim ensaios de sonhos, traços abstratos de rosto, ressecam todos no sertão despovoado. Acenam misteriosos os retratos recortados, os tantos olhos espalhados pelo chão – a sorrirem, a chorarem, a ignorarem os vestígios cinzentos de dias contaminados. Endemias de contrastes. Cacos contingentes.

Na sinuosidade de tuas mãos não vi asas, vi foices. Na dança de tuas sobrancelhas não vi teto e sim tempestade. Tonta e desassistida na minha mais solitária solidão, onde só eu me encaro. Onde só eu me ouço. Dancei no ritmo alheio ao compasso. Só de birra ou quem sabe de cansaço.

Estado esse que retirou da boca as palavras, das mãos a expressão. No coração um rasgo, um tiro seco, um beijo amargo – um berro amordaçado. Talvez apenas uma sombra da loucura. Abraço de madrasta, toque de navalha. Meu instinto de sobrevivência e meu aspecto de leoa morreram no reflexo claro da lagoa.


Ananda Sampaio

Um comentário:

Tetê Pessoa disse...

Afogada na Proa foi o que eu mais gostei. Lindo, sensível ... !